Autor Dr. Alexandre Ghelman
Uma relação de mão dupla
A relação entre ansiedade e alimentação é mais próxima do que parece. Muitas pessoas pensam apenas no efeito que a comida tem sobre a mente, mas o contrário também é verdadeiro: a ansiedade muda a forma como a pessoa come, escolhe os alimentos e se relaciona com a própria rotina alimentar.
Do ponto de vista biológico, a alimentação interfere no funcionamento do cérebro. Nutrientes, fibras, vitaminas, minerais e compostos presentes nos alimentos influenciam a inflamação do organismo, o metabolismo, a glicemia e até o funcionamento da microbiota intestinal. Hoje sabemos que o intestino se comunica com o cérebro o tempo todo por meio do chamado eixo intestino-cérebro. Por isso, o que comemos pode favorecer mais estabilidade ou mais desequilíbrio emocional.
Uma alimentação baseada em comida não industrializada, com frutas, verduras, legumes, leguminosas, azeite, castanhas, grãos e proteínas de boa qualidade, tende a contribuir para um funcionamento mais equilibrado do organismo. Já o excesso de açúcar, ultraprocessados, frituras, álcool e picos de cafeína pode piorar a sensação de agitação, desconforto corporal e instabilidade.
Mas a questão não é apenas “o que comer”. A ansiedade também influencia como a pessoa come.
Quando alguém está ansioso, é comum comer mais rápido, mastigar mal, perder a percepção de saciedade e buscar alimentos mais palatáveis e imediatos, como doces, massas, salgadinhos e outros ultraprocessados. A pessoa busca prazer imediato. Isso ocorre porque a ansiedade aumenta a impulsividade e favorece escolhas voltadas para alívio rápido. Muitas vezes, a comida passa a funcionar como uma tentativa de conforto.
Em outras situações, a ansiedade pode tirar a fome ou bagunçar totalmente a rotina alimentar. A pessoa pula refeições, belisca o dia todo, come fora de hora ou sente que “perdeu o controle”. Com isso, fica mais difícil seguir um plano alimentar, manter regularidade ou fazer escolhas conscientes. Não é falta de disciplina pura e simples. Muitas vezes, é o estado emocional interferindo diretamente no comportamento.
A ansiedade também pode levar a uma desconexão do momento da refeição. A pessoa come mexendo no celular, assistindo televisão, trabalhando ou pensando em mil coisas ao mesmo tempo. Nesses casos, ela praticamente não percebe o sabor, a quantidade ou o próprio corpo. Come sem presença. E isso favorece exageros, culpa e sensação de fracasso, piorando ainda mais o ciclo vicioso.
Por isso, uma parte importante do cuidado não está apenas em montar uma dieta “ideal”, mas em reconstruir a relação com a alimentação. Comer com mais atenção, em ritmo mais lento, percebendo fome, saciedade, prazer e contexto, pode ser uma forma simples e poderosa de reduzir automatismos. Alguns chamam isso de “comer com atenção” ou “mindful eating”.
A alimentação pode ajudar a ansiedade em dois sentidos. Primeiro, porque uma rotina alimentar mais equilibrada favorece o bom funcionamento do cérebro e do corpo. Segundo, porque o próprio ato de comer pode se transformar em um exercício de presença. Sentar, mastigar, sentir o sabor, observar o próprio ritmo e fazer uma refeição com mais consciência ajuda a mente a sair do piloto automático.
Em resumo, ansiedade e alimentação influenciam uma à outra o tempo todo. A ansiedade pode desorganizar a forma de comer. E uma alimentação desorganizada também pode piorar o estado interno da pessoa. Cuidar dessa relação é importante não só para o peso ou para a saúde física, mas também para a saúde emocional.
Esse conteúdo educativo é apenas informativo e não substitui a orientação de um profissional de saúde.


